CÃES UTILIZADOS COMO GUIAS

Submitted by Diniz on qui, 01/11/2018 - 13:11

Tradução do original disponível em
http://www.acabemosconelespecismo.com/perros-utilizados-como-guias/

História
Os primeiros cães convertidos em cães-guia foram adestrados na Áustria no século XVIII.
Leopold Chimani relatou em um livro a história de como Joseph Resinguer, nascido em 1775 e cego desde os 17 anos, tinha adestrado os três cães com quem convivía para que lhes servissem de guias.
Mais tarde, em 1819, Johann Wilkelm Kleim escreveu um livro explicando técnicas pelas quais as pessoas cegas podiam usar cães, aperfeiçoando as técnicas de Reisinger. Em 1845, o alemão Jacob Birrer publicou outro livro descrevendo as técnicas que utilizou para adestrar cães.
Quase 100 anos depois, e movido pela quantidade de soldados alemães que ficaram cegos durante a primeira guerra mundial, o Dr. Gerhard Stalling abriu o primeiro centro de domesticação do mundo dedicado ao adestramento de cães para pessoas com cegueira. O projeto começou a funcionar em 1916, em Oldenburg. Depois, foram abertos outros centros em cidades da alemanha.
Em 1927, Dorothy Eutis, que trabalhava na Suíça como adestradora na Seção de cães de resgate da Cruz Vermelha, se interessou com seu marido George pelo centro de adestramento da alemanha e foi lá para estudar suas técnicas.
Dorothy e George se dedicavam à criação de cães. Seu criadouro (Fortunata Fields) estava em Vevey, Suíça, e serviria, mais tarde, para prover cães para seu centro de adestramento ‘L´Oeil Qui Voit’, que foi fundado em 1929 por Dorothy e Morris Frank, quem solicitou à Dorothy que lhe adestrasse uma cadela.
A partir de 1934, a criação começou a se dar no próprio centro de adestramento.
No princípio, estes centros utilizavam cães de raça Pastor Alemão, mas durante a segunda guerra mundial, esta raça foi utilizada pelo exército, de forma que começaram a usar outras.
Hoje em dia, em todo o mundo, há cerca de 68 centros onde se treinam cães para serem guias.

CARACTERÍSTICAS DO CÃO GUIA
Considerando que os cães que são convertidos em cães-guia precisam ser dóceis, os centros de treinamento aproveitam que as raças labrador retriever, golden retriever e pastor alemão tem essa característica. Essas raças também contam com boa facilidade de aprendisagem, assim é mais fácil seu adestramento e submissão.
As fêmeas e machos que são utilizados como reprodutores devem ter entre 2 e 4 anos de idade e um tamanho médio entre 28 e 45 quilos, além de ter o pedigri de pureza.
Já que querem conseguir um animal com algumas características físicas e psíquicas concretas, o que fazem é criá-los unicamente para este fim. Deste modo, manipulam sua genética para encontrar o exemplar válido.
No caso da fêmea, o controle se baseia no seguinte processo: Detecção de cio, acasalamento natural ou artificial, o diagnóstico da gestação e o controle desta e do parto.
No caso do macho, se baseiam fundamentalmente na qualidade do seu esperma. Na prática, a FOPG, Fundação ONCE del Perro Guía, está levando à cabo um programa de congelação de semem com o fim de conservar os indivíduos agregadores.
A seleção ocorre fundamentalmente realizando provas de comportamento, observando a formação anatômica e descartando a presença de patologias congênitas e outras infermidades.
No que diz respeito às provas de comportamento, procura-se que tenham alta capacidade de aprendizagem, sejam disciplinados, inteligentes e carinhosos. Exclui-se os cães que apresentam agressividade, medo de barulho e de pessoas estranhas, ou aqueles que não sejam de todo sociáveis.
Quanto à formação anatômica, pretende-se manter o padrão de cada uma das raças anteriormente mencionadas em altura, peso, pelos e aparelho genital. Além disso, é necessário superar uma série de provas clínicas de quadris, colo e ombro. alergia, infermidade congênita cardíaca, infermidade oftalmológica e qualquer outro problema que lhe impeça de realizar sua função de animal de trabalho pelo maior tempo possível.
No caso dos machos, é essencial realizar uma correta seleção dos reprodutores. Essa seleção ocorre quando o animal completa 1 ano de idade e normalmente se faz uma linha de criação. Costuma-se selecionar descendentes de machos já testados. Os testes de comportamento, formação anatômica e ausências de patologias congênitas e outras infermidades são as mesmas que no caso da fêmia de criação.
Toda essa busca pela perfeição culmina na rejeição dos cães que não saem com as características que os treinadores procuram e o futuro desses cães resta incerto.
Segundo uma entrevista feita com a FOPG, os cães vivem com famílias de acolhimento e depois são enviados para o Centro para a Reprodução e os Partos.

Adestramento do cão-guia
O adestramento dos cães começa quase que no seu nascimento. Uma vez que ele passa em um teste inicial com 7 semanas de vida e se é considerado apto para ser convertido em cão-guia, o cachorro é entregue a uma família de acolhimento para que se habitue às situações cotidianas e e se alcance um objetivo de obediência mínima.
Isso é feito por meio de um contrato, que a família tem que assinar, no qual se compromete a educar o cachorro seguindo instruções concretas e a devolvê-lo à escola quando necessário.
Com a família, o cão aprenderá a ser limpo e submisso, a ser sociável, a desenvolver seu autocontrole, a não se cansar da coleira nem ser destrutivo, a viajar no transporte público, a entrar nos estabelecimentos e aceitar a obediência como algo natural. Uma coisa curiosa é que lhes proíbem brincar com qualquer bola, já que se acostumarem a isso, mais tarde poderia pôr em perigo a vida da pessoa cega.
Durante os primeiros 4 meses de adestramento, lhes ensinam a obedecer comandos e desobedecê-los para proteger sua vida e de seu dono. Aos 8 meses, é feito um exame completo, como radiografia, sangue, etc. para detectar alguma possível infermidade física, bem como um estudo psicológico para descartar os cães que não lhes sejam úteis. O instinto de casa, proteção e guarda, tem que ficar totalmente anulado. 
Ao fazer um ano de idade, quando o cão já está acostumado a estar com a famíilia, é levado de novo à fundação, onde seguirá com seu adestramento. Nessa época também serão castrados.
Essa fase de adestramento costuma durar entre 6 e 10 meses. Nesta etapa, se segue reforçando a obediência básica que já lhe obrigou a família e se entroduz a coleira especial que levarão mais tarde quando estiverem com a pessoa cega. Quando isso já está normalizado no cão, é adestrado para coisas como cruzar a rua em linha reta, evitar obstáculos, marcar portas, escadas ou meio-fio.
Segundo a FOPG, os cães são premiados quando se comportam bem e castigados quando se comportam mal, ainda que dizem que nunca usam a violência física.
Nessa etapa também se faz uma seleção, descartando aqueles cães que pareçam temerários ou excessivamente decididos. E se realiza também um teste de detonação, por uma parte para reconhecer sua sensibilidade auditiva e por outra para descartar aqueles que não se recuperam facilmente do susto provocado pela detonação.
A FOPG não deixa claro à que tipo de detonação submetem os cães, mas pelo que se pode ver em um vídeo que foi publicado em sua página web, se sabe que se trata, ao menos, de um disparo com arma de fogo.
Ao final dessa etapa, segundo os treinadores, 20% dos cães são descartados.
Depois do treinamento, começa a etapa chamada fase do acoplamento, que é quando entra em cena a pessoa cega.
Nessa etapa, essa pessoa tem que fazer um curso durante 3 semanas para aprender a manejar o cão. Mais tarde o curso é continuado na casa da pessoa e se trabalha em suas rotas e necessidades concretas e à partir desse ponto já conviverão juntos.
Como se se tratasse de um bem material, a pessoa adquire o cão em regime de usufruto, por meio de um contrato de ceção com a FOPG, no qual regulam direitos e deveres de ambas as partes.
A FOPG entrega à pessoa cega um manual onde dão orientações, conselhos, direitos e obrigações, etc., entre elas falam das ordens chamadas de controle em movimento, que serve basicamente para conseguir que o cão faça o que a pessoa quer. É realmente chamativo, como por exemplo uma ordem chamada "haz", que serve para marcar o cão quando deve fazer suas necessidades.
Quando chega o momento em que o cão fica doente ou perde suas capacidades, entre os 8 ou 10 anos, o substituirão por outro e o antigo se aposenta e o levarão de novo às instalações da FOPG, onde terá que esperar para ser adotado ou ficar no centro se não encontra uma nova família.

Raças utilizadas
As raças mais utilizadas como cães-guia na atualidade são, em ordem de resultados mais efetivos para as pessoas:o resultado do cruzamento entre labrador e golden, o labrador retriever, o golden retriever e o pastor alemão.
Em menor número, se utiliza ou já se utilizou border collie, flat coated, curly coated, leonberger, pastor belga, boxer, collie rough, caniche gigante, rodesian, cachorros mestiços, etc. Na Espanha, houve tentativas com o pastor Vasco sem nenhum resultado desejável.
Na seleção da raça, se tem em consideração a saúde dos progenitores, a ausência de falhas genéticas no temperamento, os pelos, assim como a adaptabilidade, grau de dominação, concentração, motivação e grau de agressividade.

HISTÓRIA DO CÃO GUIA NA ESPANHA
Os primeiros cães-guia reconhecidos na Espanha chegaram em 1963 e provinham da Escola de Rochester, em Detroit. A Organização Nacional de Cegos da Espanha, ONCE, e a Asociación Club de Leones, fundadora da escola Leader Dogs, chegaram a um acordo para que os espanhóis pudessem obter os cães nos EUA. Na atualidade, aproximadamente 24 cães por ano chegam de Rochester.
O primeiro centro de adestramento de cães-guia na Espanha foi a escola de cães-guia para cegos General Óptica, de Sant Joan, Mallorca, que foi fundada em 1972. Este centro entregou cerca de 150 cães e fechou suas portas em 1987.
Atualmente, na Espanha, há um único centro onde se adestram cães para convertê-los em guias. Foi fundado pela ONCE em Mostóles em 1990 e em 1999 passou a estar em Boadilla del Monte.
A propriedade tem 110 mil metros quadrados e conta com uma residência canina, sala de partos, clínica, bloco de cachorros, canil, treinamento, isolamento e pista de exercícios.
A FOPG adestra aproximadamente 100 cães por ano, mas tem como objetivo se superar e passar de 120.
As raças de cães que a FOPG utiliza são principalmente Labrador, Golden Retriever e Pastor Alemão.
O preço que colocam nesses cães, envolvendo criação, manutenção, treinamento, gastos veterinários, et., é de cerca de 35 mil euros por cão.
Nos seus mais de 20 anos de existência, chegou a entregar 1876 cães. 77% desses animais foram adestrados no próprio centro da FOPG e os demais na escola Leader Dog for the Blind, em Rochester.
Em 2013 foram entregues 143 cães-guia, com os quais, a Espanha, através da FOPG, tinha 1007 cães que são utilizados como guia.
A FOPG também costuma promover eventos onde leva os cães-guia para mostrá-los em um exibicionismo.

CONSIDERAÇÕES
Ao invés de ser um simples cachorro, o cão-guia passa a ser uma ferramenta de trabalho, instrumento com fins muito bem delineados.
Por estar trabalhando, é proibido que outras pessoas o cumprimentem, lhe dêem de comer, inclusive que lhe toquem. Por isso, é frequente ver nos cães uma placa onde se lê "não me toque, estou trabalhando".
Seus instintos e sua natureza são constantemente reprimidos. Quando sai à rua, não pode cheirar outros cachorros, brincar, explorar o ambiente que lhe rodeia nem interagir com outras pessoas além da pessoa a quem serve, etc.
Esses cães são obrigados a trabalhar durante quase todo o dia. Entendemos que o único momento de descanso é quando a pessoa a quem serve, descansa.
Um dos problemas é quando decidem que esse cão já não é mais útil e o aposentam. Tendo em vista que, durante muitos anos esteve acostumado a a agir não como um cachorro, mas como um instrumento, ainda que encontre uma família que o queira cuidar, os danos psicológicos que podem sofrer são desconhecidos. Significa dizer que, ao estar reprimido durante muitos anos, é provável que não aja dentro da normalidade.
Com essa prática também incentivam a criação de animais, já que tem que conseguir um bom exemplar com as características já mencionadas. Isso implica em um comércio desses cães.
Em definitivo, ninguém tem o direito, seja qual for sua situação, de exercer essa dominação sobre alguém, seja animais humanos ou não humanos.
Ainda mais quando outras pessoas poderiam realizar esse mesmo trabalho, com quem as pessoas cegas poderiam se comunicar para expressar melhor suas carências e necessidades. Na realidade, as pessoas surdocegas já usam o serviço de  um acompanhante humano.
Além disso, é sabido que muitíssimas pessoas com cegueira podem desenvolver sua vida normalmente contando apenas com o auxílio de uma bengala.
Em nenhum momento queremos menosprezar as dificuldades que podem chegar a ter uma pessoa com deficiência visual em seu dia-a-dia, mas acreditamos que o bem estar de um não necessita gerar o mal estar de outro, independentemente da espécie a qual pertença.
Por último e segundo palavras textuais da FOPG, os cachorros compartilham com as famílias adotivas a única fase de sua vida onde podem ser simplesmente cães.


Fontes
Fundación ONCE del perro guía http://perrosguia.once.es/home.cfm
Asociación Española de Perros de Asistencia http://www.ctv.es/USERS/aepa/guias.htm
Centro Canino Integral http://www.ccam99.com/shbox.asp?bbdd=bdnoticias&id=1369&zona=articulos&idm=es&web=po&eve=zz&footershow=0
Perros de Asistencia/Terapia: Perros Guía http://www.voraus.com/adiestramientocanino/modules/wfsection/article.php?articleid=214&page=0
Estudio del protocolo de reproductivo en la ‘Fundación ONCE del perro guía’ http://revistas.ucm.es/vet/19882688/articulos/RCCV0909220167A.PDF
Asociación Costarricense de Personas con Perro guía. http://www.acoppegcr.org
http://www.consumer.es/web/es/mascotas/perros/adopcion/2012/02/06/206988.php
http://www.europapress.es/epsocial/ong-y-asociaciones/noticia-ulises-perros-guia-once-gradua-madrid-20140307154000.html
http://www.perrosguiadeandalucia.org/perros-guia
Mini video sobre la FOPG https://www.youtube.com/watch?v=qDl9dHLBvhI