O SER HUMANO NÚ E CRÚ, VOCÊ É ASSIM? maio/2010
Sou DEBORAH PRATES – advogada cega e usuária de cão-guia. De quando em vez – por solidariedade – esse tabloide “FOLHA DO MOTORISTA” vem nos dando um espaço pra que possamos interagir com os amigos Motoristas, pelo que, mais esta vez, registramos os nossos agradecimentos. Imaginem que, nos meus estudos diários de direito, li um artigo comentando sobre um Projeto de Lei de um nobre Deputado, pelo qual pretendia instituir o “DIA DO SEXO”. Para tanto, sugeriu fosse o dia 14 de janeiro. INDIGNADA FIQUEI! Claro! Num Brasil onde a população precisa de alimentos, educação e saúde (básicos) uma proposta dessas é, no mínimo, um acinte a dignidade da Pessoa Humana! Pois é! Então trouxe para o nosso EXERCÍCIO periódico de cidadania um texto para reflexão. Na verdade os textos que trago habitualmente NÃO são de minha autoria. Apenas são escritos que dizem muito e que merecem ser vividos por todos os mortais como treinamento de vida. Ao invés da instituição do “DIA DO SEXO”, sugiro – como Projeto de Lei – seja apresentado para votação em Brasília o “DIA DO TROCA-TROCA DAS MÁSCARAS”. Em que consiste essa sugestão? Consiste em um exercício onde um DIFERENTE troca sua MÁSCARA com um IGUAL. Durante um período, por exemplo, eu (cega) trocaria a minha máscara com um parlamentar (o Pres. Lula da Silva). Nesse exercício “Lula”, de OLHOS VENDADOS e de posse de JIMMY PRATES faria a sua rotina dentro e fora do Palácio tendo que enfrentar todas as adversidades que eu enfrento no dia-a-dia. Não seria legal? Enquanto esse Projeto de Lei não é apresentado trago para vocês um texto super lindo – que NÃO é de minha autoria – para que os amigos se coloquem nos lugares dos DIFERENTES e meditem como é difícil sobreviver nessa SELVA DE ASFALTO! Depois, se puderem, comentem com o JOrnal (por e-mail) sobre a sugestão do DIA DO TROCA-TROCA DAS MÁSCARAS. Vai abaixo o texto: “Vista Cansada. Se eu morrer, morre comigo um certo modo de ver, disse o poeta. Um poeta é só isto: um certo modo de ver. O problema é que, de tanto ver, a gente banaliza o olhar. Vê não-vendo. Experimente ver pela primeira vez o que você vê todo dia, sem ver. Parece fácil, mas não é. O que nos cerca, o que nos é familiar, já não desperta curiosidade. O campo visual da nossa rotina é como um vazio. Você sai todo dia, por exemplo, pela mesma porta. Se alguém lhe perguntar o que é que você vê no seu caminho, você não sabe. De tanto ver, você não vê. Sei de um profissional que passou 32 anos a fio pelo mesmo hall do prédio do seu escritório. Lá estava sempre, pontualíssimo, o mesmo porteiro. Dava-lhe bom-dia e às vezes lhe passava um recado ou uma correspondência. Um dia o porteiro cometeu a descortesia de falecer. Como era ele? Sua cara? Sua voz? Como se vestia? Não fazia a mínima idéia. Em 32 anos, nunca o viu. Para ser notado, o porteiro teve que morrer. Se um dia no seu lugar estivesse uma girafa, cumprindo o rito, pode ser também que ninguém desse por sua ausência. O hábito suja os olhos e lhes baixa a voltagem. Mas há sempre o que ver. Gente, coisas, bichos. E vemos?
Não, não vemos. Uma criança vê o que o adulto não vê. Tem olhos atentos e limpos para o espetáculo do mundo. O poeta é capaz de ver pela primeira vez o que, de fato, ninguém vê. Há pai que nunca viu o próprio filho. Marido que nunca viu a própria mulher, isso existe às pampas. Nossos olhos se gastam no dia-a-dia, opacos. É por aí que se instala no coração o monstro da indiferença.”
Como DIFERENTE/CEGA é que peço-lhes que não ajam com INDIFERENÇA diante dos semelhantes. É muito triste não ser notado, e mais triste é, ainda, sermos HUMILHADOS com o mau hábito da DISCRIMINAÇÃO. Pensem nisso! Por um Brasil mais IGUALITÁRIO EM OPORTUNIDADES.
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