INÍCIO DO USO DA BENGALA E DO CÃO GUIA
Sou DEBORAH PRATES – cega e usuária de cão-guia – evenho dividir com vocês Internautas uma pergunta feita num grupo de deficientes visuais, pela qual o Listante indaga sobre o início do uso da bengala e cão-guia logo no início da cegueira. Assim, trago para a apreciação e complemento de vocês a minha resposta, como se segue:
Olá amigo Listante
Então a nossa situação é semelhante, melhor dizendo as nossas preocupações iniciais. Isso porque fiquei cega faz 4 anos e tive que iniciar na bengala. Assim é que vou descrever-lhe a minha experiência, como vai abaixo.
1 – De plano, ainda no apagar das luzes (tempo em que via pouco) – já fui me adiantando nesse particular porque sabia que nos próximos dias estaria totalmente sem visão por conta da ingestão de corticoides. Isso ocorreu num final de janeiro e as aulas da minha filhotinha querida começava em meados de fevereiro. Logo, tinha muito a fazer em tão pouco tempo, pelo que não tive oportunidade para depressão e outras mazelas mais! Tive logo que por a mão na massa, como se diz na gíria!
2 – Fui logo buscar aulas de mobilidade numa escola para cegos do Rio de Janeiro e, sem surpresa, ouvi que não havia vaga para o curso que estaria começando em breve. Pediram para eu deixar meu nome numa lista de espera. Claro que não fiquei esperando a banda passar! Fui logo indagando quem seria a diretora ou o diretor. Sabido é que só não há jeito para a morte. E assim, consegui que um professor, em suas horas vagas e de folga, viesse a minha casa para ministrar – não mais – do que seis aulas de mobilidade/bengala. Foi uma pessoa maravilhosa e – de minha parte – fui bem objetiva. Sem tempo para lamentações. Pedi: Dá-me logo a bengala e pronto!
3 – Disse-me o instrutor que não era bem assim e que eu teria o momento correto para a bengala e que, antes de tudo, deveríamos bater alguns papos psicológicos e por ai afora! Lamentavelmente não tinha tempo para rodeios. O tempo urgia e os ponteiros do relógio eram implacáveis. Lamento, disse-lhe, mas quero pegar logo na bengala. O psicológico será resolvido entre nós duas e rápido!
4 – Na aula seguinte esse instrutor maravilhoso – mas espantado comigo – trouxe-me Berenice. Fazia pouco que eu havia lido um livro de aventuras onde o personagem, ao final da história, se via sozinho numa tormenta em alto mar e com seu barco pesqueiro todo arrebentado e equilibrando-se como podia gritou para uma onda gigantesca que vinha em sua direção: “VENHA! SUA FDP! NÃO TENHO MEDO DE VOCÊ!… Loucura total. Quando peguei Berê, com a mesma fúria do personagem descrito, ela já foi se montando sozinha nuns plecs-plecs abomináveis E, em pensamento, lhe dizia: “VENHA SUA FDP! NA PRIMEIRA GRACINHA EU LHE PARTO AO MEIO! Na verdade precisava desse desabafo rápido.. Nenhum tempo dispunha para estar num consultório de psicólogo e/ou qualquer similar. Tratei urgente de ir à rua com o instrutor. Precisava que as pessoas da redondeza me vissem usando Berê para que também desabafassem seus “dós”. E, inevitavelmente, lá fomos nós aos sons de: “Ah! Coitada! O que aconteceu Deborah…..
5 – Em mais cinco aulas e já estava a dar as minhas bengaladas sozinha. De plano o que me deixava furiosa foi a perda do espaço aéreo. Começávamos – por exemplo – do lado direito da calçada e quando percebia já estava quase a esbarrar o meio-fio oposto. Andava como peixe, valendo dizer na diagonal da vida. Logo verifiquei que Berê não iria se dar muito bem com a minha personalidade. Era tão, ou mais, cega que euzinha. Foi aí que pensei que um olho quadrúpede iria me ajudar e parti para o encontro do cão-guia.
6 – Pelo buscador minha filhota e eu encontramos na Internet o nome de uma fundação americana, cujas informações eram as melhores. Não falava inglês suficiente para me virar na América, tampouco para o envio de cartas no idioma. Cuidei de telefonar para um curso de inglês (IBEU), expondo para o encarregado a minha necessidade. No dia seguinte já recebia um telefonema daquela que tornou-se meu anjo da guarda. Era Marilena, uma professora de inglês que – entendendo meu caso – tudo fez para acertar as nossas necessidades e já começar com as aulas. Marilena ficou sensível, vez que tinha uma filha deficiente. E tome de aula e preenchimento de formulários, envio de documentos, entrevistas e muito mais. Muita papelada e informações até o dia da entrevista pelo telefone. Para mal dos meus pecados foram duas. Marilena e eu firmes e fortes! Ano e meio mais tarde minha filhota trazia da caixa de correspondência a carta dando-me parabéns pela vitória na conquista da vaga para ir fazer o curso de treinamento de 28 dias em Nova Yorque.
Nossa! Que alegria! E que pavor também de enfrentar o desconhecido e sem dominar a língua! Nunca minha filhota e eu havíamos nos separado por tanto tempo. A cabeça girava a mil por hora. Tudo decidido e resolvido em Família. Na arrumação da mala foram lágrimas para lá e para cá. Filha, parentes, amigos, afilhadas e eu derramávamos lágrimas. Pensei no rio de lágrimas vivido pelo personagem Alice, na história ALICE NO PAÍS DAS MARAVILHAS.
7 – Procurava deixar o meu cérebro anestesiado no aeroporto Tom Jobim. Ao perceber a decolagem e ganhar a estabilidade nas alturas tive a certeza de que no voo de volta traria a totalidade da busca. Era a fundamentação da lei da atração dos corpos tão elementar na física quântica. Soube querer, pelo que JIMMY PRATES já me esperava na América. Pronto! Lá ia eu caminhando com apoio em um ombro americano pelo aeroporto J. Kennedy. E os 28 dias foram maravilhosos e muito aprendi sozinha por lá. Uma experiência de vida inenarrável. Sentia-me – verdadeiramente – um cego num tiroteio. O treinamento foi intenso e quase nem tínhamos tempo para escovar os dentes. Fiz muitos amigos com quem falo, pelo tradutor instalado em meu computador, com regularidade. JIMMY PRATES se adaptou muito bem e hoje somos uma Família feliz e com mil histórias para contar. Umas ótimas e outras tristes como, por exemplo, a discriminação que sofri praticada pelo Presidente do Tribunal de Justiça do RJ. Coisas da vida!
8 – Então, só usei a bengala por, mais ou menos, 18 meses. Agora o fato de ter cão-guia não significa, em absoluto, abandonar a amiga bengala. Não. É preciso que se tenha essa consciência. Há lugares que não devemos levar o cão. Isso porque é um ser vivo e não podemos expô-lo – por exemplo – em locais inadequados. Quando vou ao estádio do Maracanã ver meu FLUSÃO jogar não levo JIMMY PRATES. É a vez de Berê entrar em campo com seu traje de gala. Num show onde o volume do som é exagerado também não levo JIMMY PRATES. Então, o que temos que ter como princípio é o bom-senso em tudo na vida.
9 – Estou perfeitamente adaptada com Jimmy Prates. Digo-me cachogente e ele meu pessocão. Isso porque eu sou o seu cérebro e ele o meu olho. Logo, somos um só. A dupla há que estar perfeita e em plena sintonia. Nenhum dos dois pode errar. Digo que é melhor que um casamento. Isso porque no casamento a cada dia estamos mais perto do fim. Já com o cão-guia a cada dia estamos melhor. (rsrsrs) Interessante a metamorfose na cabeça das pessoas/semelhantes. Antes do cão-guia tratavam-me de: “A CEGUINHA”. Pós Jimmy Prates tratam-me: A MULHER DO CACHORRO, ou a advogada do cachorro. É, vejam meus amigos que evoluí!
10 – A bengala não nos dá gastos e nem trabalho com limpeza, veterinário, ração, etc… Em contrapartida, não nos dá a alegria de conviver com um amigo quadrúpede e de conquistar novos amigos no dia-a-dia. No metrô, por ilustração, é uma verdadeira festa. No vagão onde estamos todo mundo fala com todo mundo por conta de Jimmy. Cada um tem uma história para contar e dividir uns com os outros. É sempre um ponto de convergência e de união. Até mesmo quando temos que nos unir contra os não cachorrentos (que são a minoria). É uma grande companhia com quem converso a toda hora. A bengala não me desviava dos orelhões (telefones públicos muito mal colocados pelas calçadas), não me desviava das brechas dos andaimes de construções, não me desviava de obstáculos mais baixos que a minha cabeça, etc…. Já o guia faz tudo isso e andamos em boa velocidade. Até, quando é o caso, arrisco uma boa corridinha!
11 – Veja amigo Listante que tudo na vida há um lado bom e outro não tão agradável. Posso lhe assegurar que ter um cão-guia é fantástico quando se ama cachorro. A nossa qualidade de vida melhorou sensivelmente depois da chegada de JIMMY PRATES. Se precisar de incentivo tens o meu. Pense na opção com muito amor e carinho.
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