Discriminação
TENSÃO NO CLIMA! Lá íamos nós a achar graça das próprias experiências. Cada qual contava um experimento tido com outro ser humano acerca dos dolorosos temas que nunca nos acostumaremos graças a nossa mania de ter fé na vida. Falávamos do preconceito e da discriminação. O papo ia longe!
Puxei a roda relembrando os episódios que sofri no meu condomínio onde resido quando ouvi: “A Dra. Deborah é advogada competente, mas é cega! Por isso tem que deixar as ações e o cargo de Conselheira Consultiva”. Relembrei a passagem que ainda está começando quando fui discriminada pela maior autoridade do Poder Judiciário do Estado do Rio de Janeiro, ao me impedir de entrar – onde já frequentava há dois anos – no foro central com meu pessocão de nome JIMMY PRATES.
Aninha já contava de certa feita, quando, acompanhada de mais duas amigas, encontraram com suas bengalas um banco da praça onde sentaram para um dedo de prosa. Logo após acomodarem-se ouviram: “Ah! Coitadinhas. Todas cegas! Vão para o INFERNO!”
Augusto, mais tímido, custou a descrever uma de suas passagens. Rodeou e rodeou mas fez nascer. Disse que, esfrega daqui e esfrega dali, veio o tesão e o encontro do motel com sua namorada. Duros como coco contaram o dinheiro e conseguiram a informação de local compatível. Finalmente encontraram. Ficava bem em frente a saída do metrô. Ao pegarem a reta da portaria ouviram: “Que lindos! Lá vão os ceguinhos para o motel! Que gracinha!”
Seguidamente veio Mônica com sua história. Esperava sentada
com sua amiga Vera a abertura de suas contas em um banco quando ouviram: “Com licença. Mas será que vocês poderiam me explicar uma curiosidade? É que sempre tive interesse de saber como um cego consegue transar no escuro! Como encontram o local correto para aquilo?”
Salete continuou no ritmo acrescentando que já ao final de sua gravidez, ao atravessar a rua, ouviu: “Coitadinha. Quem fez isso com você?”
Machado, com seu vozeirão grosso, aduziu logo após com sua parte. Narrou que no trajeto de um caminho a bordo de um ônibus, a pessoa ao seu lado disse-lhe: “Nossa! Você é tão bonito. Como pode ser cego?”
E o novelo de contos foi se desenrolando com lorotas para todo mau gosto. Coisas que até o Criador duvidaria ouvir de suas Criaturas!
De repente um silêncio! O clima ficou pesado/tenso. Os amigos ficaram introspectivos. Certamente todos pensavam sobre a dor sentida com as experiências trocadas.
Na manhã seguinte conversava com Carlos – com quem trabalho – sobre os episódios de preconceito e discriminação acima. Daí ele complementou dizendo que desde que se entendia por “gente” ouvia besteiras por ter nascido negro. Com consternação disse ter perdido as contas de quantas vezes ouviu: “Preto quando não c… na entrada, c… na saída!”
Esse nosso papo custou-nos uma manhã de amadurecimento. Lembramos de muitas histórias de conhecidos uma mais petrificante que a outra. Concluí que todos os DIFERENTES são vítimas de crimes idênticos. Mas como situações tão díspares podem ser idênticas?
Simples! Os “IGUAIS” discriminam tudo quanto foge a indústria da moda. Tudo quanto foge ao estereótipo da atual sociedade. Assim, quem não tem o corpo saradão e veste acima do manequim 40, já passa a ser visto como DIFERENTE.
Quem são os diferentes? Brincadeira de criança a resposta! Os gordos/obesos, os cadeirantes, os que se locomovem de muletas, os cegos, os negros, os que residem em comunidades, os que exercem cargos tidos como menores (varredores de rua, empregados domésticos, contínuos, e por aí afora.
No fundo a dor de quem sofre o gesto discriminatório é a mesma. A intenção do ofensor, melhor explicando, de quem discrimina também é a mesma, qual seja a de tão-só HUMILHAR/ESPEZINHAR seu semelhante.
Todo esse blá-blá-blá nos leva a pensar que de longe somos a minoria como dizem as más línguas. Nada disso! Somos mesmo é a VOZ DA MAIORIA. Sim. Contudo, uma MAIORIA DESUNIDA. Se passearmos sobre o resultado do último senso (IBGE/2000), conferiremos que os negros somados aos deficientes e aos aposentados e aos que moram na periferia, já somariam mais do que o grupo dos que intitulamos de “IGUAIS”.
Como mudar? A resposta está na cara! Basta descruzarmos os braços, secar as lágrimas que nos esforçamos em derramar, falar mais alto (na moral e no amor), lançar mão da nossa legislação e sair para a luta a FAVOR DA PAZ E DA SOLIDARIEDADE. Só isso.
No entretanto, é lamentável verificar a nossa inércia e medo de reivindicar o que está na Carta da República tão às duras penas conquistado.
Fecho esse artigo com o pensamento abaixo na ESPERANÇA de que os seres humanos que o leiam reflitam sobre as monstruosidades agora divididas. Está no legado de Martin Luher King:
“Aprendemos a voar como pássaros, e a nadar como peixes, mas não aprendemos a conviver como irmãos.”
Com todo o meu carinho.
DEBORAH PRATES (cachogente) e JIMMY PRATES (pessocão)